quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ao 28 de Maio

Ao 28 de Maio, uma vez mais,
Não falto,
Para saudar amigos de ideais,
De braço ao alto!

Fonte: Blogue "Nonas" - post de 28Mai2008

domingo, 25 de maio de 2008

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...
Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...
Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...
Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...
Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...

Fonte: Textos Diversos - Coletânea de textos selecionados por José Maurício Kimus Dias

sábado, 24 de maio de 2008

Portugal foi-nos roubado

Portugal foi-nos roubado
há que dize-lo a cantar
para isso nos serve o fado
para isso e para não chorar.

Cinco de Outubro de treta
o que foi isso afinal?
dona Lisboa de opereta
muito chique e por sinal.

Sou português e por tal
nunca fui republicano
o que eu quero é Portugal
para desfazer o engano.

Os heróis republicanos
banqueiros, tropa, doutores
no estado em que ainda estamos
só lhes devemos favores.

Outubro Maio e Abril
cinco dois oito dois cinco
reina a canalha mais vil
neste branco verde e tinto.

Sou português e por tal
nunca fui republicano
o que eu quero é Portugal
para desfazer o engano!

Fonte: Blogue "Portas do Cerco" - post de 24Mar2008

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Guerra

Com orgulho, um militar
regressa à pátria, mostrando
a cruz que ganhou matando
irmãos que o queriam matar
.

Se nos pudessem falar,
os que tombaram por terra
tinham que nos perguntar:
que ganhamos com a guerra?


Fonte: Blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" - post de 23Mai2008

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Autobiografia

Entre faixas de pobreza
meu tristes pais me envolveram.
Desde então, em crua empresa,
contra mim as mãos se deram
a fortuna e a natureza.

Da terna mãe abraçado,
fui em silêncio profundo
com triste pranto banhado:
já antevia que o mundo
tinha mais um desgraçado.

Meu bom pai debalde quis
enxugar-lhe o pranto ardente.
que ela, alçando-me, me diz:
– «Vem, ó vítima inocente
dum amor casto e infeliz!

Toma os tristes cabedais
em que teu fado te lança;
toma pranto e inúteis ais;
entra na funesta herança
de teus desgraçados pais!»


Depois que plano caminho
já meu pé trilhando vai,
pobre alfaiate vizinho
de um capote de meu pai
me engendrou um capotinho.

Talhando a obra, maldiz
a empresa que lhe incumbiram;
fez nigromâncias com giz;
sete vezes lhe caíram
os óculos do nariz.

Sua obra se consagre
no portal das Barraquinhas
com grossas letras de almagre:
tapou jeiras, passou linhas:
fez um capote e um milagre.

Colchete no cabeção,
saí novo Adónis belo,
figa no cós do calção,
carrapito no cabelo
e um biscoitinho na mão.

Sobre sisudo galego,
que vara barril fiado,
já aos trabalhos me entrego:
e, em triste pranto lavado.
à porta dum mestre chego.

Debalde o bom mariola
dourava razões pequenas :
minha dor não se consola,
presságio talvez das penas
doutro tempo e doutra escola.

Entre medos e violência.
entrar no latim já passo.
e jurei obediência
a um clérigo, que era um poço
de tabaco e de ciência.

Dentre o sórdido roupão,
com a pitada entre os dedos
e o Madureira na mão,
revelava altos segredos
do advérbio e conjunção.

Era em gramática abismo;
honrava o século nosso;
porém de tal rigorismo,
que pôs na rua o seu moço,
por lhe ouvir um solecismo!

Entre o jota e o I romano
que diferença se achasse
trabalhava havia um ano;
obra que, se ele a acabasse...
... feliz do género humano!


Enquanto a minha alma emprego
nestas cansadas doutrinas,
à dourada idade chego
de ir ver as vastas campinas
que banha o claro Mondego.

Coas cabeças mal compostas,
vejo entre gostos e medos
mãe e irmãs à adufa postas;
choviam cruzes e credos
sobre as minhas bentas costas.

Já em rápidas carreiras
calcava a real estrada,
sem chapéu, sem estribeiras:
já a catana emprestada
cortava o vento e as piteiras.

Curta, embrulhada quantia.
que ao despedir me foi dada,
expirou no mesmo dia,
e fui fazendo a jornada
quase com carta de guia.

Mas já vejo a branca fronte
da alta Coimbra. fundada
nos ombros de erguido monte;
já sobre a areia dourada
vejo an longe a antiga ponte.

Povo revoltoso e ingrato
dentro em seus muros encerra;
em vão de adoçá-lo trato:
é um título de guerra
a chegada dum novato.

Pão amassado com fel,
e envolto em pranto, comia:
levei vida tão cruel,
que pior a não teria
se fosse estudar a Argel.

Sofri contínua tortura;
sofri injúrias e acintes;
lancei tudo em escritura,
e nos novatos seguintes
fiquei pago e com usura...

Da bolsa os bofes lhe arranco
no fresco pátio de Celas,
pedindo com génio franco
doces, gratuitas tigelas
do famoso manjar branco.

Sete anos de verde idade
fui metendo a destra mão
em multas desta entidade;
chamou-se boa feição.
mas era necessidade.

Achava-me sempre o dia
no tecto os olhos pregados:
a sagaz economia.
revoando nos telhados.
ao conselho presidia.

Gemer em segredo pude.
que o bom pai, falto de meios
quanto cheio de virtude.
só mandava nos correios
novas da sua saúde...


Quis de tais ondas sair
e algum bom porto aferrar;
quis o público servir,
e mandaram-me ensinar
as regras de persuadir.

Triste, enganosa ciência!
Dão-lhe louvores, mas falsos;
dizem que pode a eloquência
ir tirar dos cadafalsos
a perseguida inocência;

que chega do peito ao fim;
que arranca forçado pranto;
mas. senhor, não é assim:
esta arte, que louvam tanto.
só me faz chorar a mim.

Pende da hora oportuna;
sem ela, verá rasgadas
as soltas velas que enfuna:
arrasta vestes douradas
e é escrava da fortuna.

Não a vejo em mim frustrada,
só porque pouca me coube;
de si mesma é mal fadada:
a língua que mais a soube
foi em Roma retalhada!

O Toucado

Chaves na mão, melena desgrenhada
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada
Lhe diz co´a voz que o ar serena:
“Sumiu-lhe o colchão? É forte pena;
Olhe não lhe fique a casa arruinada!”

“Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter o pai embarcado
Já a mãe não tem mãos?” E, dizendo isto

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Gracias A La Vida com interpretação de Mercedes Sosa


Gracias A La Vida
Composion: Violeta Parra

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo


Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida

Font: Blogue: "Meu Universo em Prosa e Poesia" - post de 19Mai2008

sábado, 17 de maio de 2008

É tempo de regressar

É tempo de regressar
às minhas parras coloridas
e ver a água a gelar
esquecer mágoas e feridas
e a todos abraçar
olho por cima dos ombros
vejo a mata, lembro Amadú
e nem tudo são escombros
há a ilha de Bolama
há Susana, há Varela
as ilhas de Bijagós
e a vida pode ser bela
se nunca estivermos sós
houve prazer e amor
em terras de Mampatá
senti a raiva e a dor
saudades do lado de lá
a distância e tanto mar
mas não há ódio ou rancor
e um dia... vou voltar.

Bissau 1974

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