Naquela picada havia a morte
havia a morte naquela picada
de vinte e quatro
foi tirada a sorte
para um foi a desgraça
o diabo o escolheu
ou foi Deus que o esqueceu
havia a morte naquele caminho
naquela picada havia a morte.
Estrada de Nhacobá, 1973
Blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" - post de 14Abr2008
sábado, 19 de abril de 2008
Naquela picada havia a morte
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Transcendentalismo
Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Cai na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.
Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...
Não é no vasto mundo – por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade –
Que a alma sacia o seu desejo intenso...
Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!
Sonetos Completos
Fonte: Blogue "Nova Águia" - Post de 18Abr2008
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Nosso Portugal quirido - (em dialecto macaense)
Nôs-sua Pátria, assi grándi Naçám,
Semente d'árvre di nôs-sua existéncia,
Razám di nôs ta vivo co cocéncia,
Na Mundo, na meo di tudo naçám.
Vôs, Portugal, vôs sã tudo razám,
Na nôs-sua pensaménto acunga Mundo,
Di nôs-sua alma amor quelê profundo,
Tudo ancuza di nôs co devoçám.
Tánto príncipe, rê, navegador,
Herói, sánto, qui tánto fazê história!
Co talénto cantá vôs-sua glória,
Vôs-sua gente-sa obra co fervor,
Poeta capaz co um-cento di letrado,
Pramor di vôs-sua nómi abençoado.
*
Nom-mestê reva, vôs, nôs-sua quirido,
Olá nôs co mám fraco, 'zajetado,
Astrevê vêm co péna esbranquiçado
Pa fazê vôs-sua nómi más erguido.
Qui astreviménto más sã pódi têm,
Quim, co unga humilde papiaçám,
Vêm falá di vôs pa mundozarám,
Vôs qui na Mundo sã grándi tamêm.
Astreviménto sã têm su razám:
Tera únde nôs-sua língu já nacê
Chomá português sã sempri querê.
Qui-foi tamêm? Na nôs-sua coraçám,
Vôs, masqui vivo lóngi, têm na perto,
Nôs-sua amor pa vôs sã di más certo!
.
De José dos Santos Ferreira, "ADÉ", in CAMÕES GRÁNDI NA NAÇÁM, - Dialecto Macaense - , Edição da Fundação Á-Má-Kok, Instituição de Utilidade Pública, Macau
Fonte: Blogue "Portas do Cerco - post de 16Abr2008
quarta-feira, 16 de abril de 2008
REQUIEM NOS CAIS DE LISBOA
Desde Belém ao Beato,
Descarregados de botes,
Empilham-se ao desbarato
Muitos milhares de caixotes.
Numa larga, extensa linha,
Ocupam lados e centro
Do cais; mas não se adivinha
O que contêm lá dentro.
— O que será? — perguntei
A dois ou três empregados.
Respondeu um: — P`lo que sei,
É tudo dos retornados.
Exclamei: - Senhor! Senhor!
(E comecei aos pinotes)
Tanta coisa de valor
Metida à força em caixotes!
Onde estão, que descaminho
Levaram (sabe-se lá!)
As estátuas de Mouzinho
E de Correia de Sá?
Quantas camas, quanto berço
Transformado num caixão?
E não há quem reze o terço,
Quem murmure uma oração?...
Desceu a noite. No escuro,
Perguntei, sem ver mais nada:
— E qual será o futuro
Dessa gente atraiçoada?...
Sem consultar um oráculo,
Eu contemplei, indignado,
O pavoroso espectáculo
Dum império encaixotado.
Fonte: Blogue Nonas - post de 16Abr2008 (In «Resistência», n.º 128, 15.06.1976, pág. 6.)
domingo, 13 de abril de 2008
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Soneto da Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Contratados
«Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos
Sobre o dorso
levam pesadas cargas
Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas
Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam
Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam
Cheios de injustiças
calados no imo das suas almas
e cantam
Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam
Lá vão
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes
Ah!
eles cantam...»
Fonte: Blogue "Da Literatura" - post de 10Abr2008




