domingo, 30 de março de 2008

Sentado na minha cadeira

A PROPÓSITO DE UMA FOTOGRAFIA NO MATO CÃO

Sentado na minha cadeira,
Cerveja na mão,
Fito os olhos no longe,
Tão longe
Que vai para além do horizonte.
O Sol começa a descer
Lá ao fundo
Para os lados do Enxalé,
E os seus raios de luz
Tocam a terra de sangue
E pintam o ambiente de vermelho.
O momento é mágico
Porque não há nada mais bonito
Que o Pôr do Sol na Guiné.
Na bolanha
Junto ao Geba,
(Que se ouve a murmurar),
Passa um pequeno tornado.
Quase que o podia agarrar!
Ao meu lado
O Furriel Bonito.
Deve estar a meditar
No que é que eu estarei...
A pensar!
Estou para aqui isolado
Vivendo como uma toupeira
Debaixo de terra,
Cercado de arame farpado.
A letargia da rotina diária
Toma conta de mim
E tanto me faz
Que o dia nasça
Como chegue ao fim.
Fecho os olhos por um momento.
Estou em Monte Real!
É fim de tarde
Hora de banho
E vestir a preceito
Que o meu pai não deixa
Que se jante no Hotel
Sem uma roupa de jeito.
Já lá vem o chefe de mesa
Que tem muito que contar
Fala-me da carne e do peixe
Tenho a boca a salivar.
Tocam-me no ombro!
Esfumou-se o meu sonho!
É o Mamadu que me diz,
Com o seu sorriso:
«Alfero,
O comer está pronto.»
O que lhe falta
Em smoking de profissão,
Excede em alegria
E dedicação.
Levanto-me,
Olho em redor.
Nas pequenas tabancas
A luz das fogueiras
Ilumina a escuridão
Da falta de luz.
Abano a cabeça
Para afastar o torpor
E grito bem alto
Com a minha voz forte,
A afastar o temor:
«Pessoal,
vamos morfar,
que nunca se sabe,
quando isto vai acabar!»


Monte Real, 29 de Março de 2008


Fonte: Blogue "Luis Graça & Camaradas da Guiné" - post de 29Mar2008




sábado, 29 de março de 2008

Asa no espaço, vai pensamento

Asa no espaço, vai pensamento!
Na noite azul, minha alma flutua!
Quero voar nos braços do vento
Quero vogar nos barcos da Lua!

Vai minha alma, branco veleiro
Vai sem destino, a bússola tonta
Por oceanos de nevoeiro
Corre o impossível, de ponta a ponta

Quebra a gaiola, pássaro louco
Não mais fronteiras, foge de mim
Que a terra é curta, que o mar é pouco
Que tudo é perto, princípio e fim.

Castelos fluidos, jardins de espuma
Ilhas de gelo, névoas, cristais
Palácios de ondas, terras de bruma
Asa, mais alta, mais alta mais

Fonte: Blogue "Estado Sentido" - post de Cristina Ribeiro de 28Mar08

Cigano

Transporto as tralhas da vida
na caravana que sou,
e não sei para onde vou
e nem sei o que me chama;
mas sou da raça andarilha
e tenho pinta cigana.

Mais que desejo é viver
este contínuo mudar
que o fastio de ficar
logo me vence ao chegar

Não me dou a um local
nem refaço o chão que gasto.
Eu sou da serra e do vale
e toda a terra é meu pasto.

Fui roubar a cor ao sol
e a genica aos vendavais,
andei na rota do vento
e descansei no luar.
Sou cigano como o tempo
que não pára nem regressa
porque a vida leva pressa.

Fonte: Blogue "Um Portuga em Apuros nos Trópicos" - post de Capitão-Mor de 19Abril2008

quarta-feira, 26 de março de 2008

Procurei...

Procurei...
Nos caminhos onde andaste
Nas paradas onde formaste
Nas avenidas onde desfilaste
Também andei, formei e desfilei...

Nas casernas onde moraste
Nas camas onde deitaste
Nos objectos onde tocaste
Também morei, deitei e toquei...

Nos sítios onde pisaste
Nos bancos onde sentaste
Nas árvores onde descansaste
Também pisei, sentei e descansei...

Naquelas paragens eu fui...
Andei, formei, desfilei
Morei, deitei, toquei
Pisei, sentei, descansei

Procurei... procurei... procurei...
Naquelas paragens eu fui
Atrás de ti, para te buscar...
Sinais de ti, eu descobri
Mas a ti, já não consegui encontrar...

Fonte: Blogue "Luis Graça & Camaradas da Guiné" - Post de 17Mar2008

terça-feira, 25 de março de 2008

Quero um mundo melhor

Quando eu for grande
Já for homem e for valente
Vou avisar toda a gente
Façam um mundo melhor!

Quando eu for grande
Vou ser um homem exigente
Vou querer um mundo diferente
Com mais justiça e amor!

Quando eu for grande
Tenham isso bem presente
Vou exigir fortemente
O mundo humano maior!

OBS: dedicado ao meu nento e a todos os netos
Fonte: Jornal Destak de 25Mar08, pág 19.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Lisboa à noite

Lisboa adormeceu, já se acenderam
Mil velas nos altares das colinas
Guitarras pouco a pouco emudeceram
Cerraram-se as janelas pequeninas

Lisboa forme um sono repousado
Nos braços voluptuosos do seu Tejo
Cobriu-a a colcha azul do céu estrelado
E a brisa veio, a medo, dar-lhe um beijo

Lisboa

Nota: Música adaptada â "Marcha de Cangamba" de Ilda Ramos
Fonte: http://letras.terra.com.br/tony-de-matos/503012/

Lisboa à noite - Instrumental


Lisboa à noite - Cantada pela Milu

sábado, 22 de março de 2008

NE DECHIRE PAS

Ne déchire pas
Il faut publier
Tu peux publier
Tu en as le droit
Publier même sans
Editeur tordu
Leurs sous-entendus
Et leurs boniments
Publier fait peur
Quand on ne sait pas
Qu'il suffit crois-moi
D'un bon imprimeur
Ne déchire pas (4)

Moi je les lirai
Tes perles de nuit
Venues de sursis
Où tu ne dors pas
Je crirai tes vers
Sur la scène d'Alfort
Et même d'Astaffort
Devant Dieu le père
Je boug'rai des dolmens
Pour qu'on parle de toi
De cette nouvelle voie
Que les gens comprennent
Ne déchire pas (4)

Ne déchire pas
Qui retrouverait
Ces mots condensés
Que tu écris là
Je te parlerai
De ces savants-là
Qui ont eu cent fois
Des œuvres refusées
J'te f'rai rencontrer
C'lui par hasard roi
Quand Gallimard pas-
Sa sans le signer
Ne déchire pas (4)

On a vu souvent
Destinés au feu
Des feuillets maintenant
Qu'on dit fabuleux
Il est paraît-il
Des vers brûlés
Qui feraient trembler
Plus d'une jeune fille
Après l'purgatoire
Où personne n'y croit
Le rouge et le noir
Ne s'impose-t-il pas
Ne déchire pas (4)

Ne déchire pas
Tu ne vas plus douter
Tu ne vas plus compter
Sur tout leur tralala
Tu vas t'éditer
C'est ça l'avenir
Tu vas leur montrer
Qu'on peut s'en sortir
Et même réussir
A sortir de l'ombre
L'ombre de ces nains
L'ombre de ces requins
Ne déchire pas (4)

Titre de l'oeuvre originale : NE ME QUITTE PAS
Pour le PROGRAMME DES OEUVRES DIFFUSEES destiné à la SACEM (formulaire jaune) :
Notez simplement : NE DECHIRE PAS (Jean-Luc PETIT TERNOISE)

quinta-feira, 20 de março de 2008

Los enemigos

Los enemigos
Ellos aquí trajeron los fusiles repletos
de pólvora, ellos mandaron el acerbo
exterminio,
ellos aquí encontraron un pueblo que cantaba,
un pueblo por deber y por amor reunido,
y la delgada niña cayó con su bandera,
y el joven sonriente rodó a su lado herido,
y el estupor del pueblo vio caer a los muertos
con furia y con dolor.
Entonces, en el sitio
donde cayeron los asesinados,
bajaron las banderas a empaparse de sangre
para alzarse de nuevo frente a los asesinos.

Por esos muertos, nuestros muertos,
pido castigo.

Para los que de sangre salpicaron la patria,
pido castigo.

Para el verdugo que mandó esta muerte,
pido castigo.

Para el traidor que ascendió sobre el crimen,
pido castigo.

Para el que dio la orden de agonía,
pido castigo.

Para los que defendieron este crimen,
pido castigo.

No quiero que me den la mano
empapada con nuestra sangre.
Pido castigo.
No los quiero de embajadores,
tampoco en su casa tranquilos,
los quiero ver aquí juzgados
en esta plaza, en este sitio.

Quiero castigo.

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