quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Poema do Menino Jesus

Num meio dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem.

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz.

E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
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Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina.

É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
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Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
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Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

(Alberto Caeiro)
O Guardador de Rebanhos - VIII (08-03-1914)
Fonte: Blogue Random Precison - Post de

domingo, 13 de janeiro de 2008

(Che giornata - Que Dia!) Tradução de Rui Moio de italiano para português

Que dia!
Que dia!
Que dia!

Finalmente o homem certo
Encontrei

O que ele diz é estranho e extravagante
Mas ele me fascina no seu estilo exuberante.

Como é bom. Desenvolvido e despreocupado
Desenvolto, de cara alegre e coração contente.

É. O retrato da eterna juventude
Se o observo muito me acarinha!

Mas que amor! Mas que amor!
Como um raio que se desfez
O homem justo que encontrei
Não me parece que seja verdadeiro

Vou tanto precisar da sua face e dos seus cabelos
E sentir entre os dedos seus cabelos(?) Rebeldes

Que dia!
Que dia!
Que dia!

Verdadeiramente posso dizer que sou uma afortunada
Encontrei aquilo que transporto no meu coração
O calor da chama do amor.

Como é forte, corajoso e irresistível
Não tem medo de nada, ama o risco e a aventura.

Desde o instante em que o vi que disse a mim mesmo
Mas que esperas? Não o deixes escapar

Mas que amor!
Mas que amor!
Como um raio que se desfez
O homem certo que encontrei não me parece que seja verdadeiro.

Há dois olhos como os seus
Um perfil fascinante
Um olhar inteligente
Um sorriso luminoso

E para ele não conta nada
O julgamento das pessoas
Se crê que seja louco
Não o conheces completamente

E sabeis o que vos digo?
E sabeis o que vos digo?
Vocês pensam ao vosso modo
Homem meu assim penso eu.

Rui Moio
***************
http://www.youtube.com/watch?v=HqeHhwM0aJU
Che giornata
che giornata
che giornata!

Finalmente l'uomo giusto
l'ho incontrato.

C'è chi dice che sia strano e stravagante,
ma mi affascina il suo stile esuberante.

Com'è bello, disinvolto e spensierato!
Che portamento scanzonato viso allegro e cuor contento.
E' il ritratto dell'eterno giovinezza
se lo guardo mi fa tanta tenerezza!

Ma che amore! Ma che amore!
Come un fulmine ha colpito.
L'uomo giusto l'ho trovato
quasi non mi sembra vero.

Voglio tanto accarezzare la sua fronte e i suoi capelli
e sentire tra le dita i suoi riccioli ribelli.

Che giornata
che giornata
che giornata!

Posso dirmi veramente fortunata.
Ho trovato chi ha portato nel mio cuore
il calore della fiamma dell'amore.

Com'è forte, coraggioso e travolgente
non ha paura mai di niente, ama il rischio e l'avventura.
Dal momento che l'ho visto mi son detta:
"Ma che aspetti? Non lasciartelo scappare!"

Ma che amore! Ma che amore!
Come un fulmine ha colpito.
L'uomo giusto l'ho trovato
quasi non mi sembra vero.

Ha due occhi come il sole
uno prifilo fascinoso
uno sguardo intelligente
un sorriso luminoso

e per me non conta niente
il giudizio della gente
se credete che sia matto
non lo conoscete affatto

E sapete che vi dico?
(e sapete che vi dico?)
Voi pensate ai fatti vostri,
all'uomo mio ci penso io"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO - Poema Épico - Volume I

CANTO I - "DO TEJO GRANDIOSO AO ZAIRE PODEROSO" -(65 estâncias)-

1) - Não pretendo cantar lutas gloriosas
...... Desses antigos reis e outros senhores,
...... Já gabadas em versos e altas prosas
...... Por alguns de mais rápidos louvores,
...... Mas sim aquelas duras,perigosas,
...... As mais negras, sem fim e sem favores,
...... Desses aventureiros de espantar
...... Que venceram as terras e o alto mar !

2) - Olhos ténues do céu azul e distante
...... Que sois luzes de estranhos universos,
...... Eis,bem erguida, minha lira sonante
...... Pra relatar por estes pobres versos
...... Quanto labotou o luso navegante
...... Nestes ocidentais rincões imersos,
...... Bem longe, nas lonjuras tão profanas
...... Das seculares costas africanas !

3) - Apenas pra os de triunfos merecidos
...... E que, de pó,seus feitos silenciosos
...... Estavam já cobertos ou sumidos
...... P'la pata de inimigos temerosos,
...... A eles, de tantas lutas esquecidos,
...... Louvo a Calíope, para que animosos
...... Vibrem os seus, em som alto e mais forte
...... Contrariando os caprichos d'outra sorte!

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CANTO II - NO REINO DO CONGO - (171 estências) -

1) - Os negros barulhentos, todos ledos
...... Na festa com que os lusos recebiam,
...... Por vencerem as lendas e alguns medos
...... Das tantas terras que, vendo, possuíam,
...... Entre si, com recato e alguns segredos,
...... Mais dobrados cuidados lhes faziam,
...... Sem esconderem seus tratos e modos
...... Dum apreço e respeito dados a todos.

2) - Em tão gratas mercês deles ficavam
...... Que deixar sair ninguém desejaria,
...... Pretendendo aprender quanto ensinavam
...... Do seu muito saber, fé e valentia.
...... Por diversos locais tambores soavam
...... Convidando ao batuque a negraria,
...... Cada qual em seus trajos mui variados
...... E aos outros parecendo desusados.

3) - Corpos cobertos só das baixas partes
...... Com troncos nús e braços musculosos,
...... Outros fêmeos, gentis, de finas artes
...... Dançavam e saltavam mui graciosos,
...... Fazendo certas coisas sem desastres
...... Com pulos, gestos, gritos estrondosos;
...... O visitante espantado ficava
...... E,de certo modo, isso não admirava!

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CANTO III - NO REINO DE ANGOLA - (108 estâncias) -

1) - Do Congo ao Cabo o Reino estava
...... Em cada dia alargando a sua fronteira,
...... Engolindo outros sobados, andava
...... Juntando tributos d'outra maneira.
...... Desse,que antes de Ndoango se chamava,
...... A Angola dava a palavra primeira,
...... Assim sendo para sempre conhecido
...... E por aquele senhor protegido.

2) - Uns antigos os quimbundos combateram
...... E em seu lugar ficaram instalados,
...... Depois, ainda os anzicos submeteram
...... E tomaram as rédeas desses lados.
...... Um, N'gola Inene, que antes conheceram,
...... Seria dos angolanos iniciados
...... O que mais terras depois conquistara
...... Formando um Reino que em grande tornara;

3) - Um que de ferrador tinha alguns jeitos
...... E aos seus queria com muito coração
...... Teve cuidado com valiosos peitos
...... Livrando-os da mais rude privação.
...... Por todas essas coisas satisfeitos
...... O buscaram para a nova Nação,
...... Designando-o po N'GOLA, rei primeiro,
...... E mais Mussuri, nome verdadeiro,

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CANTO IV - O GOVERNO GERAL - (113 estâncias) -

1) - No ano noventa e dois, sendo Janeiro,
...... Foi nomeado pra Angola outro gestor;
...... Vinha c'o ilusões e homens,bem lampeiro,
...... Sendo um ilustre e mui rico senhor.
...... Teve boa recepção, sendo o primeiro,
...... Nem se sabendo qual o seu valor
...... Porque às gentes surgia como um estranho,
...... Vindo que era das terras doutro amanho.

2) - Mas o modo de sua governação
...... Causou protestos dalguns contrafeitos,
...... Feridos no interesse e na feição
...... E pelos quais houvera bons proveitos.
...... Surgia deles um padre, com acção
...... Alegando os haveres e direitos
...... Ganhos em anos de muitas canseiras
...... E para outros o fim das suas asneiras!

3) - Duvidando por onde a razão andava
...... E sendo tantos falsos, intriguistas,
...... Deixou tudo ficar como ali estava
...... Aguardando a sentença dos legistas.
...... Cada soba uma nova causa dava
...... Sendo apoiado com largas, santas vistas,
...... Por certos padres que ali comandaram
...... E quase por si também governaram.

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CANTO V - A GRANDE GINGA - (63 estâncias) -

1) - Vasconcelos, pra Angola fora eleito
...... E logo toma posse de sua herdade,
...... Só seguindo mais tarde ao duro leito
...... Quer fosse p'lo receio ou pouca vontade.
...... Evitando um perigo ou algum mau jeito
...... Com holandeses sem qualquer piedade,
...... Tivera de fazer um melhor plano
...... Dispondo armas e homens com menor dano.

2) - Os tributos ao reino destinados
...... P'los diversos caminhos se sumíam,
...... Por uns padres e chefes controlados
...... E que entre si essas coisas discutiam;
...... Despertados de sonhos, enganados,
...... Que com promessas vãs os iludiam,
...... Passaram a explorar as novas fontes
...... (Que andavam as cabeças ali as montes!)

3) - Entre eles as discórdias aumentavam
...... Repondo em lutas pérfidos rivais,
...... Pois que dos mesmos meios todos usavam
...... Esquecendo de pronto tudo o mais.
...... A paz com alguns sobas negociavam
...... Para alcançar daqueles naturais
...... Auxílios necessários nas suas guerras
...... Com as quais se ganhavam as boas terras.

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CANTO VI - O DRAMA DA ESCRAVATURA - (75 estâncias) -

1) - Muitos escravos foram retomados
...... Que eram vendidos em boa quantidade,
...... Sendo para novas terras embarcados
...... Que deles havia lá necessidade.
...... Mas os poderes régios contrariados
...... Logo os mandavam de volta à sua herdade,
...... Sendo caso de má e desleal conduta,
...... Não fosse obra feia, de filhos de puta!

2) - Não era por Dom Henrique ou sua alegria
...... Que em escuros negócios se metessem,
...... Sendo antes para Cristo e a Santa Pia
...... Todos quantos a Nova ali quizessem;
...... Amolecendo as mentes pretendia
...... Evitar que outros piores ali viessem
...... Colher frutos em tão enorme fartura,
...... Que uma vida fácil nem sempre dura!

3) - Em tendo aquele campo bem semeado
...... Seria farta e válida a colheita
...... E,próximo do tal reino ali buscado,
...... Uma outra melhor já havia de estar feita.
...... Pra tanto era o caminho procurado
...... Em naus que o Índico rápido rejeita,
...... Se outra solução não fora a escolhida
...... Que era a vela,mais fácil,sumetida.

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CANTO VII - DOS ATAQUES HOLANDESES À RECONQUISTA - (103 estâncias) -

1) - Os mares muito turvo se tornavam
...... Por algumas escuras, feias razões,
...... Doutros que o rico Reino desejavam
...... Cheios de cobiça e ódio de ladrões;
...... Para o interior as tropas não marchavam
...... Poupando as fracas forças e os canhões,
...... E,deslocando-os antes para as costas
...... Protegiam-se das naus ao largo expostas.

2) - Da outra banda dos mares oceânicos
...... Chegava triste nova de espantar,
...... Que plebes calmas já punha em pânicos
...... Das coisas que por certo se iam passar:
...... - Velas grandes, tamanhos titânicos,
...... Preparavam-se para os atacar !
...... Sendo fraca a defesa residente,
...... Temerosa se punha toda a gente,

3) - Mas, suspendendo um pouco essa eminência
...... Os reservados, cautos holandeses,
...... Sabidos da possível resistência
...... Comum em muitas lutas e revezes,
...... Prosseguiam com mais pérfida violência
...... Sobre alguns desses pobres camponeses,
...... Sondando talvez aos poucos os caminhos
...... Pra ver que haveria entre esses ninhos.

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101)- Logo alcança o fronteiriço e alto Penedo
...... Levando quanto surgia p'la frente,
...... Os forte toma e ocupa de arremedo
...... Que a coragem fazia aumentar a gente!
...... Em fuga alguns se botam bem mais cedo
...... Cuidando noutra forma diferente,
...... Com os fogos danados incendiando
...... Tudo o que por ali iam abandonando.

102)- Restava por refúgio a fortaleza
...... Que o encorajado luso ali arremete,
...... Defendendo-se então a cercada presa
...... Mas que sem forças já pouco acomete.
...... De novo Salvador com mais firmeza
...... Se prepara para honrar seu galhardete,
...... Quando nota no alto mastro a bandeira
...... Agora branca, em vez da desordeira !

103)- "Abre-se a porta" dessa "cidadela"
...... Saindo os vencidos bem envergonhados,
...... Em número maior e em vária farpela
...... Entre alas dos vencedores formados.
...... Metidos depois numa caravela
...... Dali são pra sua terra despachados,
...... Enquanto por toda a costa angolana
...... Ardia de novo a flama lusitana !

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POEMA ÉPICO - Roberto Correia - Volume : I

NOTA - ESTE POEMA ÉPICO TEM DOIS VOLUMES COM UM TOTAL DE 1.368 ESTÂNCIAS : Vol.I = 698 e Vol.II = 670, A QUE CORRESPONDEM 10.944 VERSOS)

DO ZAIRE PODEROSO AO CUNENE MISTERIOSO - (Poema Épico - Volume II)

CANTO VIII - A RESTAURAÇÃO DOS REINOS - (71 estâncias) -

1) - Para esse mesmo Reino de Benguela
...... Foi então nomeado Gomes de Gouveia
...... Enquanto outros de sua douta tutela
...... Fugiram da terrível alcateia.
...... Muita gente, com boa e melhor farpela
...... Seguia a santa, de flores toda cheia,
...... Sendo o colégio antigo recompensado
...... Porque junto ao palácio era situado.

2) - Assim caminham para a fortaleza
...... Com uns santos e santas resguardados,
...... Sendo sua fé mostrada com firmeza
...... Entre tantos fiéis e alguns soldados.
...... Não causaranenhuma outra estranheza
...... O que logo surgiranoutros lados
...... Já festejando com muita alegria
...... O fim do sofrimento e vilania.

3) - Outros, enviados à Vila Vitória,
...... Informavam da nova situação,
...... Retirando da lusa e boa memória
...... Tanta desgraça e total desolação.
...... Mandara recolher, sem mais história,
...... Todos que se mantinham p'lo sertão
...... Sendo bem mais segura a capital
...... Antes que lhes surgisse novo mal.

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CANTO IX - A INFLUÊNCIA BRASILEIRA - (72 estâncias) -

1) (72)- Para Vieira chegara a ocasião
...... De assumir o comando desejado
...... Tendo tido outra boa governação
...... Em terras do Brasilcom muito agrado.
...... Aos jesuítas não alegra a nomeação
...... Pelo que logo fora excomungado;
...... Julgando-se em Angola superiores
...... Manobravam sem ter opositores.

2) (73)- Massandano recebeu benefícios
...... Passando a vila por merecimento,
...... Depois de tanto azar e sacrifícios
...... Da população em fácil crescimento.
...... Os igleses cometem artifícios
...... Numa grave traição sem fundamento,
...... Quando Chichorro,calmo,regressava
...... E em Paraíba porém preso ficava!

3) (74)- Doente e com fome finha falecido
...... Nem lhe valendo o farto e bom marisco
...... Pois,pelo mesmo,foi depois comido
...... Sendo assim muito pior que um outro risco!
...... Ao sobrado esqueleto,ali esquecido,
...... De nada servia já o poder ou o fisco
...... E,nem mesmo o salvando,o Salvador,
...... Só restando entregar a alma ao Criador!

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CANTO X - A INEVITÁVEL EVOLUÇÃO - (72 estâncias) -

1) (144)- Távora chega a Luanda com atraso,
...... Em plena juventude da sua vida,
...... Entre grande alegria,sem qualquer prazo,
...... Com espanto da gente embevecida.
...... Não perdendo mais tempo e, sem dar azo
...... A avanços de adversários nessa lida,
...... Mandara reforçar fortes, fortins,
...... E outras bases de mais seguros fins.

2) (145)- Chegam à capital embaixadores
...... Do novo rei conguês com cumprimentos
...... Ao governador jovem e uns senhores
...... Que davam apoio aos doutos elementos.
...... Solicitam vencer usurpadores
...... Estranhos, sem humanos sentimentos,
...... Que mantinham negócios dos escravos
...... Recordando outros tempos dos eslavos.

3) (146)- Dom Rafael concedera outro condado
...... Que junto ao Pinda estava protegido,
...... Muitos seguiam o destino desgraçado,
...... Não cumprindo o tratado antes havido.
...... Os jesuítas também haviam falhado
...... Com o escuro negócio, repelido,
...... Sendo expulsos p'ra tais bandas,distantes,
...... Em companhia de certos traficantes!

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CANTO XI - NOS REINOS DO SERTÃO - (59 estâncias) -

1) (216)- Silva e Sousa chegapo finalmente
...... P'ra comandar o Reino principal
...... Não tempo de aguçar o dente
...... Contra Dala e o Cassanje, seu rival,
...... Que nem aproveitou a ajuda presente
...... E o livrou de sofrer um grande mal;
...... Perdera assim aquele seu comando
...... Ficando tudo a saque d'outro mando.

2) (217)- Não consegue,porém,ali aguentar
...... Preferindo regressar à origem,
...... Sendo logo preenchido seu lugar
...... Com apoio renovado e vassalagem.
...... Em Catole, Sequeira iria acampar
...... Com um certo descuido,mas coragem;
...... Acabava com trágica surpresa
...... Perdendo terrenoe alguma firmeza.

3) (218)- Explodiam as barracas num instante
...... Repletas de armas, muitas munições,
...... Mais parecendo festa delirante
...... Apavorando suas populações.
...... E Sequeira, o "invencível" e triufante,
...... Foi abatido com setas nos pulmões
...... Sem desânimo dos seus companheiros,
...... Conseguindo vencer, foram primeiros.

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CANTO XII - A COBIÇA INTERNACIONAL - (94 estâncias) -

1) (275)- Ribafria sucedera ao nobre Almada
...... Que foi governar para outro reinado
...... E para onde não houvera mais jornada,
...... Que o governo acabara co'"el-dourado";
...... Mesmo p'ra degredado era vedada
...... Sendo Angola o destino sobejado,
...... Como acontecera antes a diversos
...... Embora fossem santos não perversos.

2) (276)- A revoltada gente da Quiçama
...... Fora vencida por sobas reunidos.
...... Ribafria nunca teve santa cama
...... Actuandocom processos mal sabidos:
...... Pouco valera alguma justa fama
...... Nem resolveu problemas conhecidos.
...... No seu regresso teve de aquecer
...... Quando seu barco estsva a fenecer.

3) (277)- Entretanto, chegara Dom Noronha,
...... Havendo situações bem complicadas,
...... Com casos muito doentes,qual peçonha,
...... Para o que devia ter as mãos pesadas.
...... Mesmo o Senado, com bastante ronha,
...... Desviava nomeações menos cotadas
...... E, por não serem da alta sociedade,
...... Apenas dos musseques da cidade!

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CANTO XIII - OS CAMINHOS DA LIBERTAÇÃO - (72 estâncias) -

1) (369)- Tomara posse Dom Sousa Coutinho
...... Reunindo os comerciantes da cidade,
...... Devendo cessar logo de caminho
...... Com os que nunca obtinham liberdade,
...... Nem havendo um imposto mais daninho
...... Prejudicando toda lusa herdade,
...... Mesmo tendo suas dívidas somadas
...... Com as diversas, tão mal disfarçadas.

2) (370)- Sendo o Terreiro Público ali criado
...... Para a recolha dos bons alimentos,
...... Assim ficando tudo armazenado
...... Para distribuir com mais fundamentos,
...... Sem que algum fosse mais beneficiado
...... Ficando outros com menos suprimentos;
...... Assim evitam feios, fracos negócios
...... Ou trocas de trabalhos pelos ócios.

3) (371)- A Geometria, porém, e a Construção,
...... Em "aulas",antes já sendo existentes,
...... Tiveram uma nova pretensão
...... Havendo muitas obras dependentes,
...... Porque nem encontravam solução
...... Para resolver casos das suas gentes
...... Em casas mais antigas,mal situadas,
...... Sem posses para serem reparadas.

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CANTO XIV - OS MISTÉRIOS DO CUNENE - (128 estâncias) -

1) (441)- Decide a JUnta fixar em Benguela
...... Os dirigentes das expedições,
...... Como se fosse uma imensa janela
...... Aberta p'ra desvendar os sertões;
...... Com Furtado e Valente em curta trela
...... Tinha em Silva e Lacerda uns bons peões,
...... Buscando o estranho final do Cunene :
...... Rio estreito,largo,rápido ou perene !?

2) (442)- Uns chegam a Angra do Negro p'lo mar
...... Encontrando emissários dum sobeta,
...... Curiosos de conhecer,"conversar",
...... Como sendo "homens" dum outro planeta!
...... Mais não pretendiam do que desvendar
...... A ligação do rio com a sua meta,
...... Julgada estar situada num maior
...... Que os levasse ao longíquo interior.

3) (443)- Caminhara Gregório para o sul,
...... Indo pelo Quilengues e mais terras
...... Para alcançar em Angra o mar azul,
...... Depois de atravessar deserto e serras;
...... Com uma caravana passa um paul,
...... Chegando a Banda(Angra) sem mais guerras
...... E conseguira algumas vassalagens
...... Desde Quinzamba ao Negro,fim das viagens.

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CANTO XV - ATÉ À DESCOBERTA DA SUA FOZ - (102 estâncias) -

1) (569)- Vidal fora o primeiro governante
...... Segundo a nova Carta Nacional,
...... Que orientaria os destinos doravante
...... Co'a justiça p'ra todos sendo igual.
...... Em Benguela ninguém seria ignorante
...... Da lei aplicada por ali em geral,
...... P'ra matarem mosquitos com metralha
...... Ou,queimando umas ervas sem ter falha!

2) (570)- Ngola Quiassama,soba numa serra,
...... Não concordando com a instalação
...... Dim Presídio dos lusos em sua terra,
...... Avança contra Ambaca,no sertão,
...... Mas,a tropa depressa mais o encerra,
...... Algemando-lhe com vontade a mão.
...... Garcia,regente na Oylla,nem sabia
...... Como dominar outra rebeldia.

3) (571)- O distrito "Bragança" surgiria
...... Na zona em que Quiassama dominava;
...... Andrade,coronel,melhor fazia
...... E a ordem ali de novo se instalava.
...... Benguela no local se manteria
...... E,Catumbela,na mesma ficava,
...... Enquanto Luanda obtinha provimentos
...... Com as diversas obras e uns eventos.

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100) (668)- Os ingleses tentaram conquistar
....... O Reino de Cabinda,sem prudência,
....... Sabendo que não estava p'ra alugar,
....... Mas ao cargo da lusa previdência.
....... Subornavam o N'hongo sem cessar,
....... Fazendo quase perder a paciência
....... A quem tinha a total obrigação
....... De manter em paz sua população.

101) (669)- Costa Leal percorrendo pelo sul,
....... Passa a Baía dos Peixes,continuando
....... Em busca do mistério,sob céu azul :
....... Se o Cunene,absorvido e sem comando
....... Há tantos anos, longe do Giraul,
....... Entrava nessa areia que o iria ocultando !?
....... Findava esse segredo centenário
....... Um caso,talvez, bem extraordinário!

102) (670)- Leal, manda estudar sua navegação,
....... Pretendida por outros governantes,
....... Pensando na possível ligação
....... Ao Cubango. desejo dos meliantes,
....... Para terem mais rápida função
....... Com os barcos de tantos traficantes,
....... Na busca dos escravos e marfim
....... Sem cuidar que esse podia ser seu Fim.

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POEMA ÉPICO - Roberto Correia - Volume : II

NOTA - ESTE POEMA ÉPICO TEM DOIS VOLUMES COM UM TOTAL DE 1.368 ESTÂNCIAS : Vol.I = 698 e Vol.II = 670, A QUE CORRESPONDEM 10.944 VERSOS)

MUCANCALA

Do oriental setentrião,
do lendário Gengis Cão,
veio em perdida emigração.

Atravessados vales, subidas serras,
escalados montes, achadas as fontes,
encontrou as prometidas terras.

Aqui um povo encontra seu destino,
sua paz, seu sorriso de menino.

Em remotos genes, a eterna Alma
que em África sempre se renova.

Fonte: Blogue "Poemangola" - post de 16Out2007

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ao Bengo - nome de uma traineira

Bengo,
nome de uma traineira:
partimos do Lobito,
naquela manhã
de sobressaltos e guerra,
rumaste Luanda,
Las Palmas
e Lagos,
teu local da morte
e de sepultamento.
Salvaste nossas vidas...
É verdade!...
E agora?
Vejo-te
baloiçando,
velho,
alquebrado,
esperando a execução
da sentença de morte!
A tua proa
já não cruza
Lobito e Moçâmedes,
como as brancas gaivotas
que,
por ironia,
ainda voam,
procurando refúgio,
no seio dos teus
desventrados beliches.
Agora,
por capricho dos homens,
aguardas as chamas
que hão-de te devorar,
transformando-te
em cinza,
pó e nada...
É assim o teu.Destino,
de todos nós...
Adeus Bengo,
traineira da minha vida!...

Malaquias,
Algarve, ano 1976
Fonte: Romagem de saudade

Luanda

Luanda !, se agora n o te reconheço
na minha velhice, em tua mocidade,
porque sou eu, que me desconheço,
porque me perdi no tempo e na idade.

Ainda encontro, em minha própria saudade,
recordações, de que jamais esqueço !,
daquele pôr do sol, com que me aqueço !,
como o vimos na nossa mocidade.

Luanda !, onde, há muito tempo!, um tempo vivi,
mesmo quando, por esse mundo fora,
de ti me afastei e de ti me perdi,

a tua terra vermelha existe e mora
dentro da minha alma, e, dentro de ti,
quero jazer, quando me for embora ....

Luanda, 06 de Outubro de 2003

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O Seio Esquerdo

Aconteceu.
Ninguém espera
E, na primavera, Foi-se o seio esquerdo.

Foi-se o toque,
Ficou a sensação fantasma
Foi-se o alimento,
Ficou o vazio no peito.

Como ser mulher, sem o seio esquerdo?
Como ser mãe, sem a mama esquerda?
Como ser profissional, sem o outro par?
Como se olhar no espelho, nua?

O seio direito, encabulado,
Só e pendurado,
Emoldurando o luto
Do parceiro canhoto.

Está faltando o outro.
São dois,
Originalmente dois.
Há que ser dois.

Nunca mais seus dedos
Apertando a carne macia e rosada
Nunca mais sua boca
A brincar de trincar e arrepiar
Nunca mais a dança sensual
Dos pares no banho
E entre lençõis de cetim.

Há um imenso vazio
Bem maior que a mama
Que atinge camadas profundas
Da própria natureza fêmea.

Há a ausência constante
Lembrada todo o tempo
Pelo traço da cicatriz
Dessa ferida que não fecha.

Há a dor, os ductos, os lutos
Mágoa infiltrante, ingrata, infeliz
Dias vividos sem perceber
E para quê viver?

Olhos que nunca repararam
Agora recusam-se a olhar
Não tem remédio
Não tem escolha

Tem alopécia, náusea e dor
Tem quimioterapia
Tem agonia
Solidão de espinho e flor

Tão falso o enchimento
Disfarça a roupa
Como peruca da alma
Que dribla olhares piedosos
De mulher barbada de circo
Que extirpa seus próprios caroços.

Os dias arrastados, as horas contadas
Quando volta ao normal?
Quando se acorda do pesadelo?
Ou tentar esquecê-lo...

É tão desigual, tão caolha
Fica sem sentido, tão velha
Um robusto, imponente, desejável
Outro, um traço doente, indelével, lamentável.

Luta diária e desanimada
Para sobreviver – corpo sem jeito
Mulher sem peito, que cala o grito
Tempo finito, seio bonito
Que se foi.

Do livro: "Enfim, renasci!" Ed Impetus - 2000

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